O poder do trauma

Nesta “Coluna da Nádia”, a terapeuta fala sobre sua vivência pessoal com o estresse pós-traumático.

É justo que uma pessoa seja rotulada pelo seu trauma? Sempre me pergunto isto.

Decidi que teria uma coluna pessoal aqui no site do LDA para falar sobre assuntos que fazem parte da minha vida e para fazer reflexões.

É uma maneira de desmitificar a ideia de que sou uma pessoa muito evoluída e de trocar histórias.

Viver de imagem te consome, ainda mais quando você lida com situações diárias que pedem reconexão e descanso interno. A minha imagem é forte e poderosa, mas eu sou muito vulnerável e lido com questões pessoais assim como parte das minhas clientes.

O meu trauma me consome diariamente. Ele me tira oportunidades e experiências, mas faz parte de mim. Estou em um processo de compreendê-lo melhor e – com certa insistência – abraçá-lo. Entendo que conviver com ele, juntos nesta existência, significa talvez “perder” pessoas, vivências e sentimentos que poderiam ser mais trabalhados.

Mas foi o jeito que eu encontrei pra conseguir lidar com isto. Há alguns meses decidi focar em olhar para o meu último relacionamento – sempre comento dele, afinal foi quando eu despertei espiritualmente – e recebi uma surpresa (des)agradável. Digo que existe a possibilidade de ser agradável porque, como você já sabe, eu acredito no poder de viver na Verdade.

Se preciso olhar para o que me dói, é preciso olhar para uma Verdade que estava sendo ignorada. E foi, durante uns cinco anos. Bastante tempo pra acumular uma série de experiências e padrões, além de uma ansiedade e também alterações hormonais.

Ignorar a Vida é ignorar a si mesma, e – de uma certa forma – eu estava me ignorando. Ignorei tanto que existia uma área da minha vida que precisava de cuidado, atenção e reconhecimento, que fui deixando isto passar e colocando tudo que me feria pra debaixo do tapete.

Até o momento que chegou a incomodar. Minhas prioridades mudaram, minha lista de manifestação passou a ser mais focada em uma vida equilibrada e leve, e – com a chegada dos meus quase 30 – vieram desejos de estrutura que não existiam antes.

Nossas manifestações mudam à medida que vamos recebendo as outras e ao finalizar ciclos. Eu havia terminado uma fase livre, com uma mala na mão, mudanças de casas, viagens e autoconhecimento. Hoje já estou na fase da estruturação, responsabilidades e desejos de uma vida em família.

É preciso ser vulnerável para se assumir o que se quer, ainda mais em público. E não poderia ter uma relação equilibrada se não olhasse para os anos que vivi a relação abusiva – e os outros quase cinco anos que ignorei o que passou.

Por surpresa, recebi o diagnóstico de estresse pós-traumático. Na minha humilde ignorância como sobrevivente de um RA, eu não imaginava que isto existia. Não imaginava que a ansiedade que eu havia desenvolvido, o estresse, as alterações hormonais e todas as reações físicas que tenho ao começar a conhecer uma pessoa poderia significar um trauma.

Foi (e tem sido) muito duro pra mim em aceitar esta condição. Eu achei que isto já havia se resolvido na minha vida, mas o passado que quis ignorar me chamou de uma maneira indelicada.

Assim como ignorei esta condição, eu também fui ignorada ao falar dela para quem eu importava. Do mesmo jeito que eu quis me calar, quiseram me calar. Do mesmo jeito que eu quis que isto não tivesse importância para mim, eu recebi o mesmo comportamento.

E no processo de autorresponsabilidade eu fui entendendo que, se eu queria mesmo ter uma relação – mesmo com o trauma -, eu precisava falar dele.

Ele existe e faz parte de mim por um tempo. Durante o processo de liberação destes sentimentos eu precisava encará-lo como um companheiro. Ele estava ali me indicando algo, fazia o meu corpo suar, a minha respiração tremer e as noites de sono não eram mais as mesmas.

Eu só tinha duas opções: ou eu aceitava a existência dele e começava a escutá-lo, compartilhá-lo e a levá-lo à sério, ou eu continuaria na minha solitude que já estava se tornando solidão. Eu continuaria bem, alegre, tranquila e completa em mim ou encararia por um tempo estes sentimentos guardados para receber o que quero.

Honro as mulheres corajosas que decidem e escolhem encarar os seus medos. É uma tarefa árdua, um desafio diário se aceitar. É fácil você aceitar que você tem defeitos ou características boas, mas acolher o que te fere é mais forte do que parece.

As pessoas acham que eu tenho tudo porque vivo uma plenitude que escolhi viver, mas é desafiador você descobrir que uma das manifestações que você mais deseja precisa de um tempo, de cuidado, e de vencer um trauma.

Também é um desafio não alimentar uma raiva da pessoa que cooperou para este processo. E não ter raiva de si mesma pelas escolhas que fez durante o caminho.

É um desafio não guardar ressentimento de uma relação que me trouxe danos afetivos, físicos e emocionais por quase 8 anos. E o principal, é um desafio se manter firme todos os dias acreditando que vou conseguir vencer isto e viver o que acredito que mereço.

Também é um desafio acreditar que exista alguém que queira me acompanhar neste processo, porque não é fácil. Viver com alguém com trauma requer paciência, compreensão e afeto. O trauma fala mais alto que a razão.

O trauma grita, quer ser escutado, é intenso. Ele pede por proteção, barreiras e ressentimentos. O trauma te delimita, sussura na sua mente, te faz ver o que talvez não existe, ele te acolhe de uma maneira não-saudável. Ele quer que você continue quieta no seu espaço. Protegida e segura.

O trauma não sou eu, mas ele faz parte de mim. Ele convive comigo há anos, eu que não quis vê-lo. Mas até gosto dele às vezes, porque me traz respostas. Ter sido diagnosticada com a condição me fez enxergar o mundo de outra forma.

Dos pontos positivos de ter reconhecido o trauma estão a minha necessidade de olhar pra mim com mais afeto, de entender que preciso de uma rede de apoio ao lidar com isto, que vou me exaltar quando estiver vivendo alguma situação parecida ou que me lembre algo, que preciso de cuidado de quem quer estar perto.

Fui forçada a me colocar na minha vulnerabilidade. O trauma me abriu e estar aberta é um desafio. Uma escolha arriscada.

Na minha pesquisa não-profissional sobre Estresse Pós-Traumático descobri que uma pessoa diagnosticada com a condição vive em uma “zona de guerra”. Ela está sempre se protegendo. Ansiedade, suor, estresse, falta de ar, insônia, alucinações, entre outras coisas são sintomas de um trauma não trabalhado.

Eu amo a vida e me redescobrir nestes sintomas foi algo que me magoou. Mas é necessário olhar para isto e acredito que vou vencer. Eu não tenho mais escolha, porque não consigo mais fechar a minha vida afetiva. Não consigo mais voltar para uma zona de conforto.

Deixo aqui o meu abraço para todas as mulheres que já viveram ou vivem uma relação abusiva. Mulheres que também estão ou foram diagnosticadas com Estresse Pós-Traumático. Eu entendo vocês.

Falo para mim que não sou o meu trauma e que não serei julgada por carregá-lo. Por trás de uma história que me feriu existe a verdadeira Nádia aberta e leve para o amor. Eu torço muito por ela, assim como torço por vocês.

Espero poder continuar compartilhando esta caminhada da liberação do meu trauma. Ficarei feliz em contar com a presença e apoio de outras pessoas que acreditam em mim.

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